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06/02/2010 - 08:28

BRASILIA SABÁTICA XXIV - A CIDADE MÍSTICA

Por: Blog do Monge Sato - http://www.terrapuradf.org.br/

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    05.02.10
    Arigatô

    Arigatô por tantas demonstrações de carinho e estima pelos últimos acontecimentos.

    Arigatô é o termo japonês que significa “obrigado”.  Em inglês seria “thanks”, em francês “merci”, “gracias” em espanhol. 

    Demorei para descobrir que arigatô é uma palavra budista.  Por outro lado, não sei até hoje porque na nossa língua a gratidão, expressão de reconhecimento de um beneficio é “obrigado”.  Gostaria que alguém me esclarecesse.

    “Ari” significa ser, estar, encontrar. “Gatô” ou “gatai” quer dizer difícil.  Portanto, “arigatô” = difícil de ser, estar, encontrar.  Ser grato por estar aqui, este eu entre milhões de impossibilidades.  Ser grato por estar com você entre milhões de possibilidades.  E ser grato por encontrar-me com a Luz do Buda, que nos acolhe na sua incondicional compaixão para que, juntos, despertemos a mente que busca a Iluminação.

    Arigatô a tudo e a todos.    

    Ilustração: Sengai Gibon, O círculo, o triãngulo e o quadrado, século 19 )



    Publicado por: Monge Sato

    Surgiu uma suspeita de câncer.  Não há nada certo, estou sob investigação há um mês, mas é claro que esse tipo de situação mexe com a gente.   

    Antes mesmo de me tornar budista, a morte passou perto de mim várias vezes.  Tive tuberculose na adolescência quando a doença ainda era fatal. Escapei por um triz de um pelotão de fuzilamento no golpe de setembro de 1973 no Chile.  Vi de perto os aviões sediciosos de Pinochet bombardeando o Palácio da Moneda quando Allende e quase todo seu gabinete socialista morreram.  Já de volta ao Brasil, estando na Bahia, perdi meu irmão único e logo no ano seguinte o meu filho, ambos de morte súbita.  Em São Paulo, perdi o melhor amigo, o Bimbo, que conviveu comigo todo o período universitário.  Em todas essas situações, sofri muito, sem ter a cobertura do budismo.

    Já como monge budista, lembro-me que no dia seguinte à minha posse no Templo de Brasília, tive que realizar um enterro e, desde então, tenho oficiado dezenas de cerimônias fúnebres.  Tive que enterrar os meus pais, soube do falecimento no longínquo Japão dos meus queridos tios idosos e acompanhei a morte anunciada da minha mulher, Cecy, que foi companheira por 40 anos.  Fui me despedir de um amigo importantíssimo, o Eduardo, que me abrigou na volta ao Brasil e morreu lentamente.   As mortes do Monge Murilo Nunes de Azevedo, de quem li os primeiros textos em português sobre o Shin Budismo, do Monge Nakabayashi que há dezesseis anos me abrigou no Templo de Brasília e recentemente do Monge Haritani que me ajudou na preparação dos novos tempos em Brasília.  “Mas, agora tudo é diferente, pois estou imbuído do espírito estóico, tranqüilo e resolvido do budismo”, -- assim pensava. 

    Longe disso.  Quando me informaram da suspeita, logo calculei se o meu seguro cobria ou não o tratamento em São Paulo, onde os hospitais são melhores e mais eficientes.  Depois, a racionalização em cima dos princípios budistas: a morte nada mais é que a prova da impermanência, a comprovação da interdependência cármica, a indicação da insubstancialidade do eu.  Idéias confusas sobre o que deixar como testamento espiritual e prático para minha companheira atual, a Cris, meus filhos e para a sanga.  E certo sentimento de frustração, achando que os últimos anos de cuidado com a saúde, como dieta equilibrada e exercícios físicos diários não valeram nada.  

    é verdade que não fiquei propriamente desesperado e pessimista nem querendo chegar logo à Terra Pura e não fiquei imaginando um túmulo bonito para a posteridade, mas só depois de algum tempo, após receber tantas mensagens de carinho e cuidado de pessoas preocupadas comigo, consegui chegar a uma postura talvez imanente ou mais coerente com o budismo.

    Assim, seja qual for o resultado da investigação sobre a suspeita, já valeu, ou seja, o que vale é o aqui e agora, na difícil travessia da margem de cá para a margem de lá.  A morte não é para ser ignorada, dissimulada ou temida, mas também não é para ser fantasiada como a chegada a um local privilegiado, onde se acredite cessar, automaticamente, qualquer sofrimento.          

    Na idéia dessa travessia budista da vida, a concepção das Seis Paramitas ou Portas da Ação Presente para o Aperfeiçoamento, Aqui e Agora, me foi muito útil.  1 - Dana: doação e generosidade para se libertar do apego e do desejo.  2 - Shila: plena consciência ética para neutralizar a própria inveja e discriminação.  3 - Kshanti: o abraço do abrigo incondicional e tolerância para evitar a arrogância e o julgamento.  4 - Virya: disciplina e persistência para espantar a preguiça e a indolência.  5 - Dhyana: introspecção calma e profunda para não se perder na raiva ou insaciabilidade.  6 - Prajna: exercício da compaixão e sabedoria para limpar a ilusão e a ignorância. 

    E cheguei à exultante conclusão de que o nembutsu – Namo Amida Butsu ou Namandabu – nada mais é que a chave-mestra desse portal.   Mas, triste constatação: qual porta posso abrir, aqui e agora?

    Após muita hesitação, só me vi em condições de experimentar a primeira.  Foi por isso que fiz o ato de doação.  NAMANDABU, NAMANDABU, NAMANDABU, obrigado pela oportunidade.

    (Yoko Ono - Ex-it - instalação)

     

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