O PROFETA

largou a jangada
e a pescaria
largou sua mulher
sua Maria
mudou de vida
de profissão
e de musa
Virou profeta da chuva
POETAS DE BRASÍLIA II - ARIOSTO TEIXEIRA

Mais do que a miséria, a catástrofe, a fome e a desesperança, a dor da perda foi o que veio junto com meu jornal.
Perdi. Perdemos. Aquele menino de nome celta, de significado nobre se foi.
Ariosto. Suave, cavalheiro. Na maioria das vezes usava poucas palavras. Jornalista que era, mais ouvia do que falava.
Poeta, porém, abria o verbo, os sentimentos, a rima e as cismas do viver.
O jornalista do belo texto não escreve mais. O poeta está mudo. "A palavra se quebrou como um lenço de adeus/ como um músculo se esgarça como se pano fosse/ como se em si guardasse a natureza do vidro/ E da palavra."
Agora é só saudades.
VENTO MEDITERRÂNEO
Percebeu que não voltaria mais
quando as plantas
começaram a secar
Sempre soube que um dia iria acontecer
Que desceria as escadas
como uma sombra empapada de ar
Mas não que doeria tanto
A dor era isso a dor
Não temer a tempestade da travessia
Quem sabe se voasse para longe
Sempre quis
ir aonde bem entendesse
ser o que bem entendesse
falar com quem bem entendesse
até descobrir que não existia outra voz igual
no caminho que o terapeuta de florais apontara
Que estava no âmago
Que tudo vem de dentro não de fora
(....) e pensar que ser único bastaria
Construir um veleiro
uma casa ao vento mediterrâneo
suprir a alma intratável
virar como se vira o direito para o avesso
desabrochar como a orquídea amarela agarrada
na árvore torta debruçada no telhado
Não
Não suplicaria
apenas daria de beber as plantas.
DISSOLUÇÃO
O descontrole sobre o que acontece dentro,
dá a um homem a idéia de desmanchar,
a secura do osso em ácido corroendo-se,
espuma dissolvendo-se na pia de lavar.
Sente-se um demente a pedir esmola,
as mãos trêmulas, a mente em bruma,
úlcera afogada em coca-cola,
saudade de si, melancolia e tontura.
Do tempo emerge o aroma que abala,
até que percebe que tal fumaça,
é só um erro que de si mesmo exala,
arma de destruição em massa.
um homem não sabe o que sente quando nasce,
mas sabe o que padece até que tudo passe.
*
OCEANO

A renda de bilro
a lenda do barro
o caminho do barco
e o lombo do burro.
Esse nordeste
de tantas sinas
nos serve e nos arruma
num vasto oceano de rimas.
*
CONSELHO

Vire o amor
de cabeça para baixo
e ele se tornará aventura.
Segure a mão
de quem espalha espelhos
e sua visão será loucura.
Pegue os sempres e os jamais
misture sentimentos de sombra
e abra fugas para o nunca mais.
E quando tudo saber a romãs
aperte o dia contra o peito
e o mundo lhe envolverá
no abraço perfeito das manhãs.
*
VERBETE

Abismo, amigo, não é abrigo
nem escora e nem arrimo
abismo é o ôco profundo
é o princípio do precipício
é o início de toda queda
e o body jump do mundo. |