Alexânia - de 2008
ALEXÂNIA
Administração Municipal
Coluna Social
História
Economia
Educação
Editoriais e Opinião
Esporte
Lista Telefônica
Literatura, Artes e Artesanato
Olhos D'Água
Personalidades
Política
Saúde
Social
Turismo e Lazer
Voz do Povo
REGIÃO DE BRASÍLIA
Brasília
Corumbá IV / RIDE
Macro-Eixo Brasília / Anápolis / Goiânia
NACIONAIS E INTERNACIONAIS
Ciência e Tecnologia
Direitos Humanos
Economia
Justiça
Literatura, Filos., História
Meio Ambiente
Política
Religião
Segurança
Social
Turismo
ALMANAQUE
Amor
Culinária Goiana
Dicas e Curiosidades
Humor
Livro das Virtudes
Máximas e Provérbios
Moda e Beleza

01/03/2010 - 21:07

BRASÍLIA SABÁTICA XXVII - A CIDADE MÍSTICA

Por: Blog do Monge Sato - http://www.terrapuradf.org.br/

Blog do Monge
28.02.10
Marlene

Marlene está inconsciente no hospital.

Será que está mesmo inconsciente?

A sua aparência era de muita paz e tranqüilidade no ouvir sereno da recitação do Juseige que fizemos ao seu lado. E conversamos.  Achei que ela estava mais bonita do que nosso último encontro, há exatamente um mês.  E a sua tranqüilidade também contrastava com o sofrimento das outras pessoas na UTI.

Ela tinha mais de setenta anos e vivia sozinha.   O filho na França, um irmão na Alemanha, outro no Rio Grande do Sul.  Há vários anos freqüentava o Templo, onde, na gestão passada, foi uma diretora muito dedicada e responsável.  Juntamente comigo, fez a versão belíssima do Juseige para o português, a partir do inglês.  Ao ouvir essa versão no leito, quieta, ela parecia mais contente.

A sua vida não foi fácil.  Chegou jovem ao Rio de Janeiro, inexperiente na vida agitada de uma grande cidade e longe da família, teve um filho.  Resolve emigrar para os Estados Unidos  com seu único instrumento de trabalho, o conhecimento da língua inglesa, acompanhada somente do filho ainda criança. Lá, permanece por muitos anos, trabalhando como secretária, insatisfeita com o trabalho, mas feliz por poder garantir a boa educação do filho. 

Consegue a aposentadoria americana básica e retorna ao Brasil. O filho, já adulto, permanece em São Paulo e ela vem para Brasília, tomar conta do apartamento do irmão diplomata que fica ao lado de um templo budista.

Talvez tenha visitado o templo por curiosidade ou atraída pelas batidas do sino.  E fica.  Sente a iluminação do Buda para continuar dando sentido à sua vida, absorve os ensinamentos do Darma que explicam as causas e condições do sofrimento humano e quer fazer parte da Sanga, a comunidade de iguais reunidos em torno do Buda para a prática do Darma.      

Passa a assistir regularmente as sessões de meditação cantada e contemplativa, recitar o nembutsu e a participar ativamente dos grupos de estudos.  Aceita ser membro da diretoria do Templo para ajudar na sua manutenção e expansão.  

Via-se que foi um período feliz da sua vida.  Poucos amigos, mas vivia bem, viajava às vezes com o filho que tinha namorada no exterior.  Não deixava de ter suas preocupações, com o próprio filho e consigo própria vivendo sozinha, embora a Ana, a fiel governanta, sempre agisse como um anjo de guarda.  Mas o budismo lhe renova a energia: resolve enfrentar um vestibular para diplomar-se, finalmente, como tradutora juramentada. 

Estuda seriamente e é aprovada.

Na mesma semana, somos informados da sua hospitalização.

Marlene vai renascer na Terra Pura do Buda para dar continuidade à sua vida, agora em perfeita Paz e plena Bem Aventurança.  Ela tem consciência disso, daí a sua expressão serena, tranqüila e bonita.

( Leiam a tradução  e ouçam o audio do Juseige.)

fotografia : Emptiness - Zorg Sabato



Publicado por: Monge Sato

Arigatô de novo pelas manifestações e esclarecimentos.  Já tinha lido a interpretação de que a palavra japonesa seria uma corruptela de obrigado, por influencia do São Francisco Xavier que visitara o Japão na época do senhor feudal Oda Nobunaga, no século XVI.  é difícil sustentar essa tese pela origem budista comprovada de arigatô.

Para ilustrar a compreensão budista e cultural da palavra, vamos voltar ao século XX para poder contar uma história real.  Eu devia ter sete ou oito anos, e me lembro que era perseguido por alguns meninos na rua. Eles me jogavam pedras, gritavam e xingavam: “Japonês, arigatô, nê! Japonês, garantido, nê”.  Não entendia nada e corria assustado.

Eram anos de pós-Segunda Grande Guerra Mundial. O Japão, que fazia parte do Eixo juntamente com a Alemanha e Itália, foi um país perdedor e o Brasil estava do lado dos vencedores, EUA, Inglaterra, França, Rússia, etc.  E os imigrantes alemães, italianos e japoneses que pouco tinham a ver com essa história e estavam trabalhando honestamente integrados ao mundo social e econômico brasileiro, recebiam alguma forma de discriminação. 

Os imigrantes japoneses iam direto para as colônias de café, mas cumprido o contrato faziam tudo para chegar às cidades a fim de educar os filhos, ganhando a vida no pequeno comércio ou prestação de serviços como quitandeiro, dono de armazém, tintureiro, carpinteiro, etc.  Sem falar bem o português para se comunicar, tinham que assegurar a qualidade do serviço ou produto e difundir cordialidade. 

“Será que esse ovo está fresco?” “Garantido, nê.  Arigatô”.  “Posso ter essa roupa lavada e passada até sábado?” “Garantido, nê.  Arigatô”.

Os termos “garantido, nê” e “arigatô”, passaram a apelidar os japoneses que assim foram construindo sua credibilidade profissional e harmonização social.  Assim, não deixa de ser fortuita maldade comum em crianças maltratar um japonesinho que fugia assustado sem entender porque duas palavras de tão nobre significado eram usadas para xingação.   

Ele estava longe de saber que “garantido nê” significa a indubitável crença budista de que, no ciclo da vida e morte, pode-se sair da margem de cá – samsara – para atingir a outra margem de lá – nirvana.  é a convicção de que, no fluxo da vida, o sofrimento do esforço e o balizamento do caminho correto nos direcionam no sentido da verdadeira felicidade.  é a postura para cultivar no aqui e agora as condições para a plena realização das causas benéficas intrínsecas.       

Aquele japonesinho hoje sabe que é difícil nascer, especialmente na forma humana.  Milhões de células se perdem para viabilizar você, só você.  Agradeçamos a isso.

Sabe também que na vida temos milhões de encontros, desde o nascimento até agora, reais ou virtuais e por todos os lugares – na rua, na escola, no cinema, num estádio de futebol, no site  – mas o encontro precioso com você – sim, você mesmo que está lendo esse post -  foi uma única possibilidade.  Agradeçamos a isso.

Existem milhões de explicações sobre a vida.  Muitas teorias e doutrinas, impressões e idéias pessoais que vêm e vão a qualquer momento da vida, no cotidiano.  Encontrar-se com a Luz do Buda pelo nembutsu é uma oportunidade rara.  Agradeçamos a isso.

Não há porque se queixar da vida, tão difícil de ser, estar, encontrar.  Agradeçamos a isso.  ARIGATô – NAMO AMIDA BUTSU.

(Ilustração: O peixe dourado, Paul Klee)

 

 



Publicado por: Monge Sato

Imprimir matéria
Enviar por e-mail
Comunicar erro

Alexânia TV Digital - Todos os Direitos Reservados - Desenvolvido por IdeaLink Design e Propaganda