A FÉ LIGIOSA PODE OFERECER RISCOS - Brasília, 01/03/2010
A grande maioria de nós brasileiros teve formação religiosa . A fé é um elemento central dessa formação, sendo vista como um fator absolutamente positivo e que não está sujeito a avaliações sobre seus resultados. Tudo se passa como se existisse uma dimensão única da fé concentrada em sua natureza benfazeja. A fé religiosa nos é ensinada como o meio eficaz de ter acesso ao(s) Ser(es) extra-terreno( os)que governam o mundo e nossas vidas. A fé opõem-se e dispensa recorrer à razão humana para, supostamente, conhecer os mistérios mais profundos de nossa existência . A fé, em síntese, implica acreditar sem questionar.
Se a fé religiosa é aceita como uma característica de nossas vidas essencialmente benfazeja, não há realmente com que preocupar-se com o fato dela ser acrítica, ou seja, de não requerer qualquer evidência lógica ou empírica para o conhecimento das “verdades” a que se aplica. A questão deixar de ser simples, na medida em que nos damos conta de que as religiões normalmente administram nossa fé. Na administração de nossa fé, as religiões é que de fato escolher e definem o(s) Ser(es) em que devemos acreditar, assim como, as regras que devemos seguir na vida na vida real para podermos gozar das recompensas, quase sempre após a morte, mas às vezes na própria terra, que podem derivar de nossa crença..
Ora, as religiões são comandadas por seres humanos como nós e, portanto, sujeitos a cometer equívocos tanto na escolha, quanto na definição e, por fim, no estabelecimento das regras a serem seguidas na vida. Sendo assim existe o perigo de nossa fé ser direcionada para finalidades equivocadas. A conclusão a que se chega é que não dá para adotar a fé como meio de acesso à verdade sem um mínimo de senso crítico, isto é, recorrendo à razão ou a prática.
A História está cheia de exemplos de que à recorrência cega à fé pode conduzir a verdadeiros desastres. Daí a conveniência de acreditar, mas sempre com um pé atrás, porque os administradores da nossa fé podem nos conduzir a caminhos indesejáveis. Não faz muito tempo, que o reverendo Mum, criador de uma seita religiosa nos Estados Unidos, um verdadeiro louco travestido de profeta, levou um grande número de seus seguidores ao suicídio em nome da salvação de seus espíritos. Todos conhecemos as histórias das guerras religiosas nas quais militantes fiéis sacrificaram suas vidas em nome da defesa da religião quando os objetivos reais, porém ocultados, dos que conceberam as guerras tinham muito a ver com interesses bem mundanos de expansão territorial, captura de escravos, saqueio etc.
A inspiração para escrever este texto veio, entretanto, de duas questões que atualmente causa desentendimentos entre um segmento da sociedade brasileira preocupado com a defesa dos Direitos Humanos e a Igreja Católica: O uso de preservativo na relação sexual e a legalização do aborto. A Igreja adota uma posição contrária em ambos os casos. Para saber de qual lado posicionar-se é fundamental adotar uma atitude crítica em relação ao pensamento da Igreja, evitando incorrer em equívocos que a Igreja possa cometer em seu papel de administradora da fé de seus seguidores. Para o bem da Humanidade é fundamental não aceitar acriticamente, em nome da defesa da fé, determinadas “verdades” que as religiões pretendem impor a seus seguidores, pois elas podem ocultar interesses nem sempre os mais nobres.
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O PT PRECISA DIFERENCIAR-SE DO GOVERNO
Brasília, 14/02/2010
Os dirigentes do PT precisam ter muito claro que seu partido não é atualmente e não deverá ser nunca o partido de todos os brasileiros. As profundas divisões entre as forças sociais no Brasil, simplificadamente, entre as forças de direita e de esquerda, requerem que o partido que representa estas últimas assuma de forma definitiva sua condição de organização voltada para a mobilização político-ideológica da população, destinada a transformar o país em direção ao socialismo democrático.
Apoiar o governo formado com lideranças do PT não deveria significar nunca perder a capacidade de assumir um papel de vanguarda na defesa de objetivos específicos do Partido, mesmo que isto signifique ser crítico em relação as ações do governo, que por razões óbvias tenderão a ser mais moderadas e negociadas junto as diferentes forças sociais do país.
A confusão que dirigentes do PT e seus representantes políticos fazem entre esses dois papéis, têm levado à desmobilização política das forças de esquerda e não ajuda em nada o governo a adotar posições mais ousadas na direção dos objetivos da classe trabalhadora..
A atuação parlamentar do PT neste aspecto tem sido lamentável, pois os políticos eleitos pelo partido, visando a não entrar em choque com as posições do governo, simplesmente omitem-se de entrar no debate duro e explicitador das diferenças reais existentes entre os interesses da direita e da esquerda no país. É indispensável para o avanço das forças progressistas da sociedade brasileira que desapareça do pensamento político a falsa idéia de que não há mais ideologias. Essa visão só beneficia a ideologia conservadora e de direita, ainda dominante na sociedade brasileira.
A suposição de que o crescimento econômico unifica os interesses das classes e grupos sociais no país é uma grande ilusão. Nos meios utilizados para e na apropriação dos frutos do crescimento aparecem claramente o resultado do antagonismo existente.
É ilusório imaginar que a crise em que encontra o DEM, partido que lidera a direita no país é indicativa de que as forças sociais por ele representadas estão derrotadas. Essas forças estão muito vivas e apenas aguardando o momento mais adequado para chegar ao poder por meios legais ou não. A direita não morre de amores pela democracia, especialmente quando ela está possibilitando o avanço social da classe trabalhadora.
Os discursos inflamados em defesa da Constituição que representantes do DEM fazem no Congresso, visando atacar e incompatibilizar a população com os movimentos sociais, especialmente o MST, não são sinceros. Por outro lado, a direita mesmo desorientada tem conseguido mudar significativamente a Constituição na direção da defesa de seus privilégios.
O clima de antagonismo entre os interesses da direita e da esquerda no país não se atenuou nos últimos anos, basta ver a conduta da grande mídia em sua campanha diária para desmoralizar o governo. As atitudes de indisciplina entre militares de alta patente nas Forças Armadas também mostram o quanto estão vivos os antagonismos político-ideológicos no país.
A burocratização e acomodação do PT, com muitos de seus representantes “dormindo em berço esplêndido” em cargos públicos e sindicais podem, no melhor dos casos, levar à perda da Presidência da República para as forças representativas da direita e no pior ao retorno da ditadura. Sociedades desiguais, como a nossa, vivem permanentemente ameaçadas por “golpes de estado”, contra os quais o mais seguro é manter-se alerta e atuante no sentido da conscientização do povo. Distribuir bolsas-família, melhora a distribuição da renda, mas não é suficiente para evitar que o povão eventualmente apóie movimentos de direita em momentos de crise econômica, dos quais obviamente não estamos isentos.
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O QUE OS PARTIDOS DE ESQUERDA RESISTEM A APRENDER.
Brasília, 21 de janeiro de 2010
Flavio Lyra
Os partidos de esquerda ao longo da história sempre se deixaram surpreender com a conduta dos eleitores das camadas mais pobres da população, quando estas contribuem para a eleição de candidatos de direita. Veja-se o que se passou esta semana no Chile, a presidente Bachelet, depois de uma administração muito voltada para o social e contando uma aprovação de 80% nas pesquisas, assiste seu candidato ser derrotado pela direita, com a eleição de Piñera, um ricaço que muito se assemelha ao primeiro-ministro da Itália, o magnata corrupto Berlusconi.
Marx, no seu “18 Brumário de Napoleão Bonaparte” já chamava a atenção para a conduta volúvel daquele estrato mais pobre da população que, por viver na miséria e na ignorância, é uma presa fácil para lideranças de direita, que podem ganhar sua simpatia de modo relativamente fácil, mediante pequenas benesses.
Aqui no Brasil não tem sido diferente. O PT e outros partidos de esquerda, depois que se aboletaram no poder, parece que esqueceram de fazer política junto ao povo. Não sendo, pois, de admirar que a militância política esteja cada vez mais retraída. Enquanto Lula consegue atingir índices de aprovação altíssimos pelo apoio crescente junto aos mais pobres, seu partido, o PT, vai perdendo o charme de outrora e virando um partido igual aos outros. Exceção a essa conduta acomodada, observa-se nos movimentos sociais, especialmente no MST, que trava uma batalha político-ideológica diária com a classe dominante. O MST, lucidamente, sabe perfeitamente que precisa fazer política em sentido amplo e não restringir-se a tratar exclusivamente das questões de acesso à terra. Por isso, é tão odiado pela direita.
As lideranças dos trabalhadores organizados acham que já chegaram ao paraíso e usam suas energias exclusivamente para manter os privilégios já alcançados. Parece mesmo que já aceitaram a falsa idéia de que os capitalistas são seus aliados e que a única coisa importante é que o crescimento econômico se mantenha e a inflação não aumente. Com isto, atingem o objetivo de ter as condições de vida da elite da classe trabalhadora melhorando. Coitados, estão encharcados do pior economicismo! O fundamental para eles é verem a indústria automobilística a pleno vapor, não importando o que isto significa em termos de degradação do meio ambiente e prejuízo da qualidade de vida nos centros urbanos.
Não percebem que a qualquer momento podem voltar a ver os índices de desemprego crescerem e os salários reais deixarem de aumentar.. É bastante que volte a ocorrer uma crise. Aí, vão dar-se conta de que seus interesses e o dos capitalistas são no fundo contraditórios.
Falta, porém o pior: vão perceber que a direita reincrustou-se no poder, seja pelo voto, seja por meio truculentos.Volta, então, a ser necessário começar tudo de novo. Só que em condições muito mais desfavoráveis, especialmente no que toca à mobilização do povão despolitizado, que permanece um fácil alvo para as lideranças vinculadas as classes proprietárias. Basta de inércia das forças de esquerda! Para transformar a sociedade de verdade é preciso conscientizar a maioria da população e trazê-la para a arena política. A burocratização das lideranças de esquerda pode dar a impressão de que os trabalhadores organizados chegaram ao paraíso, mas é apenas uma ilusão passageira, pois a classe proprietária está sempre agindo na alimentação das caldeiras do inferno nas quais não têm o menor remorso em atirá-los quando de sua conveniência. Infelizmente este ó mundo da ordem social capitalista!
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A FRAGILIDADE POLÍTICO-IDEOLÓGICA DO LULISMO
Os elevados índices de aprovação de Lula e de seu governo junto à população brasileira, que o colocam em posição privilegiada em relação a qualquer outro dirigente do país eleito pelo voto, dando origem ao neologismo “Lulismo”, representa, sem nenhuma dúvida, um fato marcante no cenário político-eleitoral do País. Estudo recente realizado por Andre Singer, “Raízes Ideológicas e Sociais do Lulismo”, é bastante eloqüente em relação à identificação dos fatores subjacentes a esse fenômeno.
Utilizando informações sobre as últimas eleições e sobre pesquisas posteriores, assim como a opinião de analistas dessas pesquisas, o estudo mostra a perda de apoio de Lula junto à chamada classe média ao lado do aumento considerável de sua aprovação junto aos segmentos mais pobres da população, o chamado subproletariado. O aumento da aprovação junto aos quase 50% da população representado por este último segmento mais que compensou as perdas junto à classe média.
A política econômica do governo que tem possibilitado manter o custo de vista sob controle, impedindo os efeitos devastadores que a inflação tende a produzir sobre as condições de vida dos mais pobres, ao lado de uma política social que tem elevado o poder aquisitivo desses segmentos, responde em medida substancial pela mudança na conduta dessa população, até então marginalizada dos frutos do desenvolvimento.
Acontece que esse amplo segmento da população tem se caracterizado por seu baixo nível de consciência política e ideológica. Trata-se de um eleitorado, por razões perfeitamente justificáveis, extremamente sensível a benefícios que atendam suas necessidades mais imediatas. Políticos populistas de direita, como foram Jânio Quadros e são Paulo Maluf, Joaquim Roriz e muitos outros, tiveram ou têm nessa população uma fonte importante de seu poder eleitoral.
A direita brasileira já percebeu claramente essa situação. Até agora tem conseguido minar seriamente o prestígio de Lula e do PT junto ao segmento da classe média, mas não tem encontrado o caminho para chegar aos segmentos mais pobres da população. Enquanto for possível manter em ascensão os benefícios que a política econômica e social do governo propicia aos mais pobres não há muito a temer.
Por certo, que a manutenção dessa prioridade ao social vai ser um obstáculo à aceleração do crescimento, pois a manutenção da inflação sob controle e o avanço da política social acarretarão menor disponibilidade de recursos para investimento público na infraestrutura econômica e manutenção da moeda sobrevalorizada. Neste último caso, com prejuízos para o aumento das exportações e o aprofundamento da industrialização.
Esse modelo, entretanto, tende a se defrontar no futuro com ameaças não desprezíveis. A situação do Balanço de Pagamentos pode se deteriorar perigosamente nos próximos anos e o empresariado industrial mobilizar-se contra o modelo, à medida que seus produtos sejam cada vez menos competitivos nos mercados internacional e nacional. Tampouco, nada assegura que no mercado internacional não surja alguma crise que penetre nossas fronteiras, especialmente com a redução do fluxo de capital estrangeiro que vem cobrindo nosso considerável déficit em conta-corrente.
A direita política vai continuar sua ação de minar o prestígio do Lulismo junto à classe média, aguardando o momento propício para atingir com possibilidades de sucesso o segmento dos mais pobres. A única forma do Lulismo contrarrestar a ação da direita é politizar, conscientizar e organizar os segmentos mais pobres da população para resistir à ofensiva da direita, que certamente virá num momento de crise do modelo atual. O fortalecimento dos movimentos sociais pode jogar papel importante para neutralizar a ação da direita. Em síntese, o ponto forte do Lulismo no momento atual, pode chegar a ser sua grande debilidade no futuro. É preciso agir!A FR
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UMA RAZÃO FORTE CONTRA A ATUAL POLÍTICA MONETÁRIA: “DÁ COM UMA MÃO E TIRA COM A OUTRA”.
Flavio Lyra. Brasília, 26/02/2010
Dando continuação à tarefa que me atribui de levar aos leitores de meu blog uma visão simples e de fácil entendimento dos complicados conceitos da economia, dedico atenção desta vez a atual política monetária.
A quantidade de dinheiro (papel-moeda e crédito) que circula na economia, juntamente com a velocidade com que o dinheiro circula (muda de mãos), num determinado período de tempo, determinam o volume de operações de compra-venda que pode ocorrer no mesmo período, e, por essa forma, influenciar a quantidade de produtos a ser produzida. Em termos simplistas, O papel da política monetária, executada pelo Banco Central é, precisamente, regular a quantidade de dinheiro existente na economia , visando evitar que o excesso de dinheiro possa gerar aumentos de preços dos produtos, ou a carência de moeda possa impedir que a produção seja plenamente realizada. Inclusive, em casos extremos, gerando queda de preço generalizada ( Deflação). Trata-se de uma tarefa complexa e nem sempre de resultados muito precisos.
Historicamente, têm sido usadas muitas formas de executar essa tarefa. Num passado já remoto o controle era feito mediante o respeito a uma relação fixa entre a quantidade de dinheiro e quantidade de ouro em reserva na autoridade monetária. Posteriormente, surgiram novas modalidades de controle, posto que a produção de ouro no mundo mostrou-se insuficiente para atender às necessidade de expansão das economias. Desde o Plano Real, o Brasil, a exemplo de muitas outras economias, vêm adotando o chamado “sistema de metas de inflação”. Esta técnica consiste basicamente em estabelecer uma meta para o crescimento médio dos preços, previsto através de pesquisas regulares junto aos agentes econômicos, e a regulação da taxa de juros dos títulos da dívida pública, a chamada “ taxa básica’.
Como os títulos públicos constituem parte substancial das reservas dos bancos comerciais, estes estabelecem as taxas de juros a que emprestam aos clientes em função das taxas de juros dos títulos públicos, os quais podem ser negociados diariamente com o Banco Central, nas operações de “mercado aberto”. A estas taxas os bancos acrescentam a cobrança de uma margem variável chamada de “spread”, que vai conformar seus lucros. Esse instrumento não é exclusivo, o Banco Central continua usando os chamados “depósitos compulsórios” , que limitam a capacidade dos bancos de emprestar, ao obrigá-los a reter parcela fixa de seus depósitos sob a forma de títulos públicos.
O uso da política de metas de inflação inquestionavelmente possibilitou manter a inflação sob controle durante todos estes anos. A elevação dos Juros tem dois efeitos sobre produção e o comércio. Por um lado, desestimulam aumentos de preços por parte dos produtores, que temem a inviabilização de suas vendas no clima criado por aumento da escassez de dinheiro e, por outro, limitam a busca de empréstimos por consumidores e produtores, afetando também a produção e o comércio. Mas, seu custo tem sido muito alto social, porquanto o combate ao aumento de preços acarreta a necessidade de elevar os juros
O grande aspecto negativo dessa política encontra-se precisamente na sua forma de operar, pois para combater os aumentos de preços ( a inflação), necessita aumentar os juros, transferindo recursos para os bancos e os detentores de ativos financeiros, que por esse meio aumentam seus rendimentos em detrimento da produção, do comércio, dos consumidores e dos contribuinte. Estes, por arcarem, através dos impostos, com os custos mais altos de financiamento dos títulos que constituem a dívida pública.
Quando se aproxima o final do atual governo e novas políticas começam a ser desenhadas para o futuro seria de toda conveniência buscar alternativas de política monetária que consigam controlar a quantidade de dinheiro na economia sem aumentar o lucro dos bancos e os rendimentos dos detentores de títulos públicos. A atual política monetária, se por um lado tem permitido controlar a inflação, fator fundamental para não prejudicar o poder de compra dos salários, por outro exerce um papel ponderável para a concentração da renda no sistema financeiro e nos detentores de títulos públicos. Realmente, não tenho condições de dizer se está valendo a pena proteger o trabalhador por um lado e prejudicá-lo por outro. “Dar com uma